Café com Galeano
O conhecimento da alma humana passa por campo de futebol - Albert Camus
Querido João,
Essa semana fiz um exercício imaginativo muito ousado: me imaginei conversando com Eduardo Galeano sobre as histórias da Copa de 2026, em sua cafeteria preferida de Montevidéu — o Café Brasilero. Digo muito ousado, João, porque entendo muito pouco de futebol e certamente não me arriscaria a conversar com ele, caso ainda estivesse vivo. Mas precisamos saber usar os atributos da imaginação para estimular nossa criatividade – imaginar não tem preço, nem espaço para a timidez.
Na verdade, João, vou confessar que desde que li o livro Futebol ao Sol e à Sombra, de autoria de Galeano, a cada Copa do Mundo, fico pensando: o que será que ele escreveria sobre o que estamos assistindo neste Mundial?
Vou falar um pouco dele, se você ainda não o conhece, para que compreenda a razão do meu desejo. Galeano queria ter sido jogador de futebol – como qualquer menino uruguaio. Sem habilidades técnicas, dedicou-se a escrever sobre o esporte, que considerava o “mais bonito de todos”. Este livro não é o único sobre o tema, mas é leitura essencial para quem gosta e para quem não gosta desse esporte. Estes últimos poderão compreender as razões pelas quais o futebol é fonte de conflitos, comunhão, alegrias e tristezas, muito além de dinheiro e corrupção.
Na minha imaginação, Galeano chega devagar, senta-se à minha frente e, antes que eu diga qualquer coisa, comenta:
- Camus tinha razão. Quem quiser conhecer a alma humana deveria passar mais tempo nos estádios.
Começo, então, lamentando a eliminação precoce da Celeste.
Ele mexe o café, pensativo, e diz:
- A falta de continuidade na vocação criadora do poder público se refletiu no futebol. Por isso digo que já não somos o que éramos.
Comento sobre a união catastrófica de um líder que não sabe se comunicar, nem conduzir uma equipe que se limita a repetir comportamentos há muito superados - como pareceu ser o caso da Seleção Uruguaia, seja por teimosia ou por preservação às atitudes radicais da liderança. Ele apenas assente. Penso, então, no quanto isso acontece com muitas equipes, tanto no esporte quanto em empresas.
Falo em Muslera e ele se inclina um pouco para frente, como quem defende alguém de quem gosta:
- O goleiro carrega nas costas o número um. Primeiro a receber? Primeiro a pagar. O goleiro sempre tem a culpa. E se não tem, paga do mesmo jeito.
Imagino que ele elogiaria o trabalho de Muslera pela Seleção, sua maturidade para lidar com a derrota, e completa, com um recado compassivo:
- Os outros jogadores podem errar feio uma vez, muitas vezes, mas se redimem com um drible espetacular, um passe magistral, um tiro certeiro. O goleiro, não.
E com toda a sensibilidade que tinha para colocar o dedo na ferida, acrescenta:
- Fabricar ídolos para depois descartá-los. É uma faca de dois gumes, definitivamente. As pessoas se reconhecem na alegria de um jogador, quando ganha ou joga bem. Mas também os fazem responsáveis do infortúnio coletivo quando perde.
Fico em silêncio por um instante, pensando em quanto os fracassos e sucessos das equipes podem fomentar reflexões sobre a maturidade para assumir os resultados coletivamente, sem encontrar culpados para os insucessos.
Sigo adiante - falamos da genialidade de Messi. Ele sorri, dessa vez com mais leveza:
- Eu creio que Messi é o melhor do mundo porque não perdeu a alegria de jogar pelo simples jeito de jogar. Nesse sentido, não se profissionalizou. Estão os que escrevem por prazer e estão os que escrevem para cumprir o contrato ou ganhar dinheiro. Messi joga como uma criança no seu bairro, não pelo dinheiro.
Rimos juntos ao lembrar do susto dado pelos Tubarões Azuis de Cabo Verde e por Vozinha à seleção Argentina, nesta semana. Penso que é uma situação corriqueira, na vida de muitas pessoas: excesso de autoconfiança que pode levar ao relaxamento e à perda de resultados.
O tom muda quando trago as apostas esportivas. Ele fica mais sério, olha para a xícara antes de responder:
- O futebol se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue.
Ficamos os dois em silêncio por um momento. O futebol, outrora acusado de ser o “ópio do povo” por intelectuais, atualmente tem sido utilizado para zumbificar milhões de pessoas viciadas em apostas, não somente no Brasil, mas no mundo. A Copa triplicou o número de apostas, aumentando um grave problema social que já estamos enfrentando desde a pandemia. Concordamos que o problema não é o futebol, mas a falta de investimento em educação e prevenção. Comento que ainda temos craques que resistem à tentação de promover as bets: os brasileiros Danilo Luiz, Endrick e o francês Mbappé.
Desilusões à parte, a conversa se anima quando falamos da “Copa da diáspora”: quase 300 jogadores começaram esta Copa do Mundo representando um país diferente daquele em que nasceram. O futebol, mais uma vez, refletindo os tempos em que vivemos - e essa é uma das belezas dessa Copa.
E por falar em beleza, não poderia deixar de falar com ele sobre a bela torcida norueguesa, da qual sinto alguma inveja. Descrevo a torcida remando unida - um só gesto, uma só voz, contagiando todas as torcidas, de todas as nações. Ele escuta com atenção e diz, quase em voz baixa, fazendo uma alusão ao futebol como religião:
- Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades.
Mesmo se os noruegueses forem eliminados pela seleção Brasileira hoje, já deixaram a sua marca de alegria e beleza neste mundial. E nós dançaremos com eles, com você, Galeano, com os deuses vikings e brasileiros. Ganhando ou perdendo.
Quando nos levantamos para ir embora, lembro que talvez sejamos nós os eliminados. Ele sorri, com aquela serenidade dos que já viram muitas Copas passarem, e diz baixinho:
- Esse domingo melancólico será feito uma Quarta-Feira de Cinzas depois da morte do carnaval. Voltarão à solidão, a um “eu” que foi nós.
O menino que quis ser jogador de futebol, como qualquer menino uruguaio, tenta me consolar assim. Mas eu insisto, discordando dele com carinho:
- Acho que o “eu” não volta mais, Galeano. Seguimos sendo nós, torcendo por outra seleção, pelo bom futebol, pelas virtudes em campo, pela experiência da humanidade compartilhada que o futebol nos permite viver.
A dor da derrota de um brasileiro é a mesma que a dor de um uruguaio, de um argentino ou norueguês. E a alegria... também é de todos nós.
Essa é a beleza que o futebol nos proporciona, João – a que Galeano nos ajuda a ver em sua obra. É um esporte que derruba barreiras, promove a comunhão, desperta a curiosidade de conhecer outras pessoas, outros países, outras maneiras de viver, de errar, de aprender, de torcer.
Mantenha-se lúcido, João. Leia Galeano e Camus. Leia sobre futebol e viva suas alegrias e tristezas. Dance. Ganhando ou perdendo.
P.S.: Fiz esse exercício imaginativo a partir do livro Futebol ao Sol e à Sombra e uma entrevista de Galeano.




