O bom leitor
Leitura em tempos de IA
O bom leitor
Querido João,
De vez em quando, falarei de Amos Oz. Ele foi um escritor e pacifista israelense, cofundador do movimento Peace Now. Dizia que a sua missão na Terra, através dos livros e das palestras, era incentivar a empatia entre palestinos e israelenses, ajudando-os a enxergar a perspectiva um do outro. Li alguns dos seus livros — todos a serviço desse propósito — e por isso seu trabalho é fonte de consulta e inspiração para mim. Ele desacomoda nossas convicções e preconceitos de maneira elegante, suave e sensível. Se você ainda não o conhece, João, não perca a oportunidade de lê-lo assim que possível.
Na sua autobiografia, Amor e Trevas, Amos define o que seria um “mau leitor”:
“O mau leitor quer sempre saber, e rápido, ‘o que realmente aconteceu’, qual é a história que está por trás, do que realmente se trata, quem está contra quem.”
O mau leitor quer uma resposta mastigada, uma ideia pronta, uma receita que possa repetir sem muito esforço.
O filósofo Sêneca, por sua vez, adverte seu discípulo Lucílio de que a leitura de muitos autores, sem aprofundamento ou reflexão, também pode formar um leitor disperso:
“Tenha cuidado, porque a leitura de muitos autores e livros de qualquer espécie tende a torná-lo dispersivo e instável. Permaneça entre um número limitado de mestres pensadores e digerir suas obras, para que construa ideias firmes em sua mente.”
Fico pensando o que diria Sêneca diante da infinidade de autores e ideias disponíveis hoje, automaticamente traduzidos para qualquer idioma em segundos. A curiosidade pode se converter em dispersão num piscar de olhos.
Sêneca compara o leitor disperso ao “mau viajante” — aquele que conhece muitos lugares, mas não se aprofunda, não cria vínculos, não tem amigos em lugar nenhum. Perambula sem objetivo, não está “presente”. Gosto muito dessa analogia entre leitor e viajante.
O mau leitor — disperso e avesso ao esforço — é também o viajante que visita lugares sem observar, apenas julga e categoriza. Não se aprofunda na história nem na cultura. Encaixa o que lê ou o que vê dentro do seu próprio mundo, sem se deixar impactar. Os livros e as viagens pouco acrescentam ao seu repertório mental, comportamental ou espiritual.
Será possível atravessar as páginas de um livro ou visitar um lugar sem sair transformado de alguma forma, João? Mesmo quando o texto é ruim ou o lugar desagradável, ainda assim houve impacto. A própria percepção do que é “bom” ou “ruim” já revela uma mudança dentro de nós.
Permanecer indiferente, sem sentir nem ter nada a contar, pode indicar um bloqueio dos sentidos que impede uma leitura sensível do mundo.
Creio que essa capacidade de se transformar pela leitura começa muito cedo. Somos leitores desde o ventre das nossas mães: decodificamos as informações que chegam até nós por intermédio delas, lemos com o corpo inteiro. Ao nascer, despertamos os sentidos e aprendemos a identificar vozes, a ler ambientes de maneira inconsciente e automática. Aprendemos a ler o mundo de acordo com a leitura que nossos pais fazem dele.
Sempre gostei dessa frase de Paulo Freire: a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Se aprendemos a ler a beleza da vida, tornamo-nos bons leitores. Se aprendemos a ler os sentimentos das pessoas, somos bons leitores. Se aprendemos a reconhecer as diferenças individuais, podemos desenvolver pensamento crítico. Somos bons leitores quando despertamos a alma e os sentidos para o mistério, para a beleza e para as pessoas.
Talvez você esteja se perguntando como estamos evoluindo como leitores em tempos de tanta informação e inteligência artificial. Eu diria que não muito bem, João.
Hoje, em 2026, o cérebro se acostuma rapidamente à superficialidade: saltamos de um conteúdo a outro em uma velocidade inimaginável para Sêneca e Lucílio. Estamos passivos ao algoritmo. Esperamos que ele nos diga o que ler, quem seguir. E seguimos rolando a tela.
A terceirização da leitura para a inteligência artificial - a delegação rotineira de análises, redações e tomadas de decisão para assistentes virtuais - diminui o esforço ativo do cérebro e, com o tempo, o torna algumas funções cognitivas obsoletas. Esse processo criou o que chamam de brain rot ou cérebro apodrecido: uma condição provocada pela exposição contínua a informações fragmentadas e repetitivas, que dificulta a concentração, a criatividade e o raciocínio. O resultado é a erosão cognitiva — o declínio gradual dessas habilidades pelo simples desuso.
Recentemente, surgiu uma IA que lê artigos científicos e os resume, sugerindo até as perguntas a serem feitas para aprofundar o estudo. Quem se habituar a usar essas ferramentas sem senso crítico, sem elaborar as próprias perguntas, se tornará um mau leitor - inclusive da vida.
No entanto, João, a leitura mais profunda nunca dependeu de tecnologia. Existem pessoas com pouco estudo, ou mesmo analfabetas, que sabem ler o mundo com o coração. Da mesma forma, há pessoas tecnoanalfabetas com muita sabedoria. Vivemos a era dos dados e dos dashboards, mas eles não são suficientes para realizar uma boa leitura.
O bom leitor vai além de tudo isso: ele sabe ler os próprios sinais de quando está apaixonado, cansado, inspirado ou com saudade. Sabe qual a lente que usa para ler o mundo, as pessoas que ama, mesmo que elas não saibam.
O bom leitor sabe ler o silêncio e os sinais do universo, de quando é preciso passar para a próxima estação.
Diante de tudo isso, João, o que importa são as perguntas pessoais:
Que tipo de leitor a sua família ensinou a ser? Um leitor preconceituoso, compassivo, curioso, crítico ou acomodado?
Qual é a leitura que você faz do mundo em que está vivendo, em 2040?
Qual é a leitura que você faz dos sinais do seu corpo e da sua alma sobre o que está vivendo? Como seu corpo está reagindo? Qual é o chamado da sua alma?
Não existe resposta pronta - existe a resposta para este momento. O bom leitor relê, lê o que ainda não havia lido e mantém o coração aberto para revisitar páginas, lugares e pessoas com crítica compassiva.
Volte sempre que sentir necessidade. Mantenha-se lúcido.






Que lindeza de texto, Simone. E você com o Maxi juntos são um deleite.