Santos ou demônios?
Querido João,
Poucas coisas revelam tanto sobre nós quanto a facilidade com que transformamos pessoas em santos ou demônios. A Copa tem sido um excelente laboratório para observar esse fenômeno. Observe as manifestações dos internautas durante esta Copa. Primeiro, sobre os argentinos; depois, sobre Haaland, jogador norueguês:
“Racistas. Ladrões. Arrogantes. Arruaceiros. Lixo. Escória da humanidade.”
“Empático. Solidário. Respeitoso. Humilde. Simples. Leal. Tão bom que nem parece humano.”
As mesmas redes que enaltecem as qualidades de Haaland vêm demonizando a seleção argentina e até mesmo Messi. Houve quem justificasse sua torcida pela Inglaterra por causa da tatuagem da face de Cristo no braço de Messi: “Prefiro piratas mercadores de escravos”, escreveu um internauta.
E assim, nossas sombras coletivas emergem - na raiva, nos memes, nos comentários, nas fake news.
A sombra pessoal se desenvolve em todos nós desde a infância. À medida que introjetamos as características consideradas ideais e desejáveis em nosso meio - como gentileza e altruísmo - vamos reprimindo aquelas vistas como feias ou indesejáveis - egoísmo, arrogância, inveja - até esquecermos que elas são tão humanas quanto as virtudes que valorizamos.
Em outras palavras, a sombra é a parte da personalidade reprimida em benefício de uma imagem ideal.
Talvez você já tenha vivido isso, João. Alguém faz um comentário arrogante durante uma reunião, e pensamos imediatamente: Que sujeito insuportável. Horas depois, interrompemos alguém em casa sem sequer perceber. A sombra raramente chega se anunciando; aparece nas vestes alheias.
Para manter essa cisão com os conteúdos reprimidos, escolhemos bodes expiatórios na família, no trabalho e até na Copa do Mundo. Alguém precisa carregar os traços que rejeitamos em nós mesmos. Assim, estabelecemos um conflito entre “nós” - os justos, os detentores da verdade, as vítimas - e “eles” - os criminosos, os racistas, os egoístas.
Reintegrar a sombra à personalidade exige coragem e compaixão. É preciso olhar para o espelho e reconhecer aquilo que não gostamos de ver: os momentos em que somos egoístas, preconceituosos, arrogantes ou donos da verdade, por exemplo.
Esse é um processo bonito, mas também doloroso. Exige paciência para acolher a própria imperfeição e aprender com os erros cometidos ao projetar nos outros aquilo que recusamos reconhecer em nós. A cura acontece quando compreendemos que esses aspectos indesejados fazem parte da condição humana. Não precisamos negá-los, mas integrá-los. Só então conseguimos enxergar nossa luz com mais autenticidade e expressar o melhor de quem somos.
Vou lhe dar um exemplo radical, João, por meio de uma pergunta que costuma doer profundamente:
- Você tem absoluta certeza de que, se tivesse 20 anos na Alemanha de 1936, não seria um jovem nazista?
- Pode afirmar, com absoluta convicção, que estaria imune a tudo o que aconteceu naquele contexto?
Responder a essa pergunta com humildade, reconhecendo que provavelmente não teríamos lucidez ou coragem suficientes para resistir às pressões do ambiente, é libertador. Dói, mas liberta.
Ter coragem para encarar a escuridão da alma humana é um caminho para abraçar a própria sombra e desenvolver nossas potencialidades. Em cada um de nós coexistem impulsos de destruição e de paz; convivem um potencial agressor e um potencial pacificador.
A paz começa quando reconhecemos nossa capacidade de produzir conflito -principalmente aqueles que alimentamos silenciosamente dentro de nós, mas insistimos em enxergar apenas nos outros.
Talvez você imagine, João, que a maioria das pessoas esteja distante das características consideradas negativas. Infelizmente, não é isso que observamos.
Muitos adotam comportamentos desumanizadores, tanto consigo quanto com os outros. Trabalham além do que o corpo suporta, exageram nos exercícios físicos, negligenciam seus relacionamentos, competem incessantemente por validação, elegem bodes expiatórios para julgar e condenar, procrastinam, refugiam-se em vícios ou perseguem uma perfeição moral impossível.
Por outro lado, também desumanizamos aqueles que admiramos. Nós os colocamos em um pedestal, como se não pertencêssemos ao mesmo mundo. Foi exatamente o que aconteceu com Haaland: ao exaltarmos suas virtudes, quase lhe retiramos a humanidade.
Integrar a sombra permite tratar muitos desses comportamentos, especialmente aqueles ligados ao cuidado com a saúde, as emoções, o propósito de vida e os relacionamentos. Amamos e odiamos nos outros, o que amamos e odiamos em nós. Quando aprendemos isso, podemos olhar para nossos companheiros de caminhada, de torcida e de existência com mais compaixão.
Somos feitos da mesma matéria. Compartilhamos luzes e sombras. E a Copa nos lembra que, apesar das bandeiras diferentes, dividimos as mesmas paixões, os mesmos medos e as mesmas contradições.
Talvez a verdadeira vitória não esteja em derrotar o adversário, mas em deixar de transformar o outro no inimigo de que precisamos para preservar a ilusão da nossa própria perfeição.
Cuide-se, João. Mantenha-se lúcido.


